
Marivoet, Salomé (2006) Euro 2004TM um evento global em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. pp. 15-29 (excertos)
As diferentes formas de afirmação de identidades que têm vindo a ter lugar nos campeonatos europeus ou mundiais de futebol, têm passado pela forte mobilização de vastas franjas populacionais nas manifestações de regozijo e orgulho nacionalista, assim como as assumidas pelos adeptos tradicionais de futebol dos diferentes países, ou pelas subculturas hooligan/casual e ultra, ou mesmo as associadas às ameaças terroristas no contexto geopolítico internacional dado se tratar de um evento global.
(...)
Tal como se assistiu em Portugal, estas vivências adquirem uma carga emocional tal, que ficam para todo o sempre registadas na ‘psique colectiva’ (“collective psyche”) como referiram Dauncey e Hare relativamente ao caso francês com o mundial de 1998 (1999: 2). No entanto, estas vivências tanto podem ser vividas ao nível da celebração da Nação ou da identidade nacional, como entre grupos que formam ou estabelecem entre si formas de identidade. Como refere Maffesoli os “pequenos grupos de redes existenciais” urbanos assumindo-se como um tipo de tribalismo, assentam no sentimento de partilha (de re-ligare), da proximidade e do local, onde emerge uma solidariedade em torno de um sentido concreto, como por exemplo um clube de futebol (1988: 79). Neste contexto, parece-nos, que a afirmação de subculturas de adeptos que investem no futebol enormes cargas emocionais, e cujos comportamentos esperados se caracterizam pela afirmação de ‘uns’ por oposição e hostilização aos ‘outros’, aos que não fazem parte do ‘nós’ (os adversários entendidos enquanto inimigos), pode ser compreendida como a radicalização das potencialidades que a configuração desportiva encerra no reforço, coesão e afirmação de identidades socioculturais.
Ainda que a maioria dos autores concorde que existem duas subculturas distintas no futebol – a hooligan/casual de origem inglesa predominante no Norte da Europa e a ultra de origem italiana nos países do Sul –, com diferentes formas de organização, comportamentos e violência, o uso do termo hooliganismo como sinónimo de violência provocada por adeptos de futebol encontra-se bastante enraizado essencialmente nos meios académicos ingleses e em geral nos institucionais (Bromberger 1997; Podaliri & Balestri 1998; Roumestran 1998; Marivoet 1992abc, 1998a, 2002b). Trata-se pois de uma generalização abusiva da realidade no quadro de uma Europa multicultural, assim como um termo pouco esclarecedor, tanto mais que os comportamentos de violência no futebol não se encontram circunscritos aos membros das duas subculturas de origem europeia, continuando uma boa parte da violência a ser protagonizada pelos adeptos tradicionais das diferentes sociedades, e também entre os próprios jogadores no terreno de jogo como salienta Jean-Yves Lassalle (1997) em La Violence dans le Sport, e nós próprios por exemplo em Violent disturbances in Portugal football (2002b).
As diferentes formas de afirmação de identidades que têm vindo a ter lugar nos campeonatos europeus ou mundiais de futebol, têm passado pela forte mobilização de vastas franjas populacionais nas manifestações de regozijo e orgulho nacionalista, assim como as assumidas pelos adeptos tradicionais de futebol dos diferentes países, ou pelas subculturas hooligan/casual e ultra, ou mesmo as associadas às ameaças terroristas no contexto geopolítico internacional dado se tratar de um evento global.
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Tal como se assistiu em Portugal, estas vivências adquirem uma carga emocional tal, que ficam para todo o sempre registadas na ‘psique colectiva’ (“collective psyche”) como referiram Dauncey e Hare relativamente ao caso francês com o mundial de 1998 (1999: 2). No entanto, estas vivências tanto podem ser vividas ao nível da celebração da Nação ou da identidade nacional, como entre grupos que formam ou estabelecem entre si formas de identidade. Como refere Maffesoli os “pequenos grupos de redes existenciais” urbanos assumindo-se como um tipo de tribalismo, assentam no sentimento de partilha (de re-ligare), da proximidade e do local, onde emerge uma solidariedade em torno de um sentido concreto, como por exemplo um clube de futebol (1988: 79). Neste contexto, parece-nos, que a afirmação de subculturas de adeptos que investem no futebol enormes cargas emocionais, e cujos comportamentos esperados se caracterizam pela afirmação de ‘uns’ por oposição e hostilização aos ‘outros’, aos que não fazem parte do ‘nós’ (os adversários entendidos enquanto inimigos), pode ser compreendida como a radicalização das potencialidades que a configuração desportiva encerra no reforço, coesão e afirmação de identidades socioculturais.
Ainda que a maioria dos autores concorde que existem duas subculturas distintas no futebol – a hooligan/casual de origem inglesa predominante no Norte da Europa e a ultra de origem italiana nos países do Sul –, com diferentes formas de organização, comportamentos e violência, o uso do termo hooliganismo como sinónimo de violência provocada por adeptos de futebol encontra-se bastante enraizado essencialmente nos meios académicos ingleses e em geral nos institucionais (Bromberger 1997; Podaliri & Balestri 1998; Roumestran 1998; Marivoet 1992abc, 1998a, 2002b). Trata-se pois de uma generalização abusiva da realidade no quadro de uma Europa multicultural, assim como um termo pouco esclarecedor, tanto mais que os comportamentos de violência no futebol não se encontram circunscritos aos membros das duas subculturas de origem europeia, continuando uma boa parte da violência a ser protagonizada pelos adeptos tradicionais das diferentes sociedades, e também entre os próprios jogadores no terreno de jogo como salienta Jean-Yves Lassalle (1997) em La Violence dans le Sport, e nós próprios por exemplo em Violent disturbances in Portugal football (2002b).
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