29 julho 2007

Euro 2004: um evento global em Portugal - excerto 4

Marivoet, Salomé (2006) Euro 2004TM um evento global em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. pp. 15-29 (excertos)

Na realidade, a origem das duas subculturas de adeptos são bem distintas, e de alguma maneira explicam as diferentes formas de violência que encerram. Os hooligans surgiram na Inglaterra nos anos sessenta, entre gangs de skinheads onde predominava a street culture associada à rixa e à confrontação entre bairros rivais nas zonas urbanas mais desfavorecidas, enquanto o movimento ultra surgiu em Itália nos anos setenta, num contexto político de luta e crítica social, ligado a membros de organizações de extrema-esquerda envolvidos em lutas urbanas (“ultrà look like a metropolitan guerrillero”), e manifestações violentas em “oposição entre uma visão do mundo conservadora-clerical (que nalguns casos particulares poderá ser considerada quase pró-fascismo), e uma visão associada à esquerda comunista”, que se veio rapidamente a estender a membros de organizações da extrema-direita (Podaliri & Balestri 1998: 91/89). Começando por se estabelecer mais enquanto movimento no seio de adeptos de futebol, as subculturas hooligan/casual e ultra foram sofrendo alterações e ajustamentos, tendo a segunda recebido influência da primeira, em especial na imagem dura dada pelos skinhead hooligans, visível em algumas franjas dos grupos ultras nos anos oitenta, justamente quando estes estavam já a mudar para o estilo casual (Marivoet 1992ab).
Como uma enorme variedade de estudos têm vindo a concluir, as rivalidades entre grupos de ultras ou gangs de casuals encontram-se enraizadas em contextos culturais e históricos dos diferentes países, transportando em cada caso uma ‘história’ (de provocações sistemáticas e lutas), que parecem adquirir maior cristalização entre os grupos de adeptos que agem em colectivo. Também a presença de membros de extrema-direita associados a comportamentos de nacionalismo exacerbado, xenofobia e racismo, apesar de ser um facto que atravessa as duas subculturas, a sua maior ou menor presença radica em contextos culturais e históricos dos diferentes países.
O aprofundamento da diversidade de situações com que se reveste a violência no futebol enquanto problema social mundial, poderá constituir-se na realidade uma hipótese de trabalho a que Eric Dunning (1999) designou de fault-lines, no sentido de se alcançar uma mais abrangente compreensão do fenómeno. Como denominador comum da diversidade de leitmotiv para o estabelecimento de hostilidades violentas (entre adeptos das subculturas ou outros), parece no entanto radicar a estreita relação que se estabelece entre as potencialidades do futebol no veicular de identidades várias. As rivalidades hostis reproduzidas em torno do futebol, tanto se podem estabelecer no quadro internacional entre países (tanto maiores quanto a tradição nacionalista dos países e as relações históricas entre estes), como no quadro nacional ou regional ao darem expressão às ‘grandes causas’ que marcam as clivagens sociais das diferentes sociedades, e que podem ir desde a questão religiosa, racial, independentista, centro e periferia, Norte/Sul, etc.

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