Marivoet, Salomé (2006) Euro 2004TM um evento global em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. pp. 15-29 (excertos)
Em Towards a global programme of research into fighting and disorder at football, Dunning, Murphy and Waddington (2002), reunindo as várias contribuições à edição de Fighting Fans, concluíram como princípios explicativos do fenómeno, o enorme significado do futebol para vida dos adeptos (raisons d’être), a perda de auto controlo advindo do forte envolvimento emocional e do elevado grau de excitação vivenciado, aliado às rivalidades e identidades veiculadas e sentidas por espaços masculinos com forte incorporação do “comportamento de luta patriarcal”, onde se encontram as formas culturais diferenciadas (como os “ ‘core football hooligans’ ou ‘ultra’ style ”). Também, as formas de violência manifestadas adquirem especificidades, sendo estas influenciadas pelas diferentes intervenções policiais. Referem ainda, que a enorme publicidade dos incidentes em torno do futebol tem vindo a atrair em maior ou menor proporção organizações extremistas (segundo a predominância destas ideologias nas diferentes sociedades), que aí encontram possibilidades de recrutamento e de expressão de comportamentos racistas, xenófobos e de nacionalismo exacerbado com forte pendor para o uso da violência.
As grandes ‘causas’ em torno das quais são construídas as rivalidades hostis que impelem os adeptos de futebol a confrontar-se, emergem dos contextos históricos das diferentes sociedades, podendo ser construídas em torno da afirmação de identidades nacionais ou da resistência a estas, nomeadamente desigualdades sociais, políticas, económicas, regionais, locais, e entre clubes, ou outras que possam assumir formas de exclusão, ou transportam oposições entre o tradicional e o moderno, segundo concluíram Armstrong e Giulianotti (2001), das várias contribuições à colectânea Constructing Social Identies: Exploring the Stuctured Relations of Football Rivalries.
Apesar das inúmeras contribuições à compreensão dos comportamentos associados à violência por parte dos adeptos de futebol pertencentes ou não às subculturas de adeptos associadas a comportamentos de violência, o fenómeno continua a suscitar forte polémica nos meios académicos e institucionais. A descontextualização da violência do fenómeno mais abrangente em que emerge, constitui em nosso entender um dos maiores obstáculos à sua compreensão. Também as abordagens produzidas pelos media, que tendem a associar os comportamentos dos adeptos protagonistas da violência a estados de insanidade mental causados ou não pelo excesso de álcool, rotulando-os de ‘energúmenos’, ‘escumalha’ ou ‘lunáticos’, ainda que captem o interesse de um largo público e assim criem senso comum, não deixam de encerrar fortes juízos de valor que nada contribuem para a explicação da realidade.
Mais elaboradas parecem ser as interpretações de alguns autores na explicação do fenómeno, que recorrem a abrangentes concepções teóricas, algumas delas de forte pendor teleológico, que apesar de fornecerem uma explicação do fenómeno acabam por assentar em frágeis pressupostos teóricos. Como defende Anthony Giddens (1985) em The Nation-State and Violence, a crença de que as ciências sociais poderiam controlar o destino das sociedades levou à construção de modelos utópicos de sociedade (“‘good society’ ”), que carecem de ser contextualizados (ou desconstruídos) através da análise crítica das realidades no contexto das mudanças em curso. De facto, se por um lado algumas destas interpretações têm feito ‘escola’, por outro têm acendido as mais vivas polémicas nos meios académicos.
Parece-nos no entanto, que alguns dos mais críticos não apresentam propostas alternativas, como por exemplo o antropólogo Gary Armstrong em Football Hooligans. Knowing the Score, ao defender que o “hooliganismo do futebol não pode ser realmente ‘explicado’, pois apenas pode ser descrito e avaliado” (1998: 21). Contudo, o autor sugere que a descrição do fenómeno necessita de ter em conta as dinâmicas ‘em jogo’, ou o drama presente na complexa contestação, e a sua construção nos específicos meios masculinos. As possibilidades de criação de risco e excitação em quotidianos que apresentam um elevado grau de rotina, onde se joga o desafio à ordem estabelecida, se sente orgulho por algo e ao mesmo tempo se provoca admiração, inveja e raiva, levam o autor a considerar que os “eventos à volta do hooliganismo” são “essencialmente narcísicos” (1998: 309).
Independentemente dos comportamentos mais ou mesmos esperados por parte dos adeptos das subculturas onde o uso da violência é frequente, e tendo em conta os históricos das rivalidades hostis, os contextos e formas de violência decorrem em grande medida do factor dinâmico colocado em marcha, nomeadamente a acção das forças policiais. Como tem vindo a ser concluído em estudos anteriores, como por exemplo de Clifford Stott et al. (2001) ‘Hooligans’ abroad? Inter-group dynamics, social identity and participation in collective ‘disorder’ at the 1998 World Cup Finals, e de Otto Adang e Christine Cuvelier (2001) Policing Euro 2000. International police co-operation, information management and police deployment, é da interacção das ‘forças presentes no terreno’, entendidas enquanto características dos adeptos, rivalidades e estratégias de intervenção das forças policiais, que em boa medida os conflitos sérios como a escalada de violência em multidão se operam.
(...)
Em síntese, através da análise da construção social que rodeia um grande evento desportivo, quisemos compreender o seu impacto ao nível dos envolvimentos produzidos em torno da afirmação de identidades nacionais e culturalmente diferenciais como se torna visível nas subculturas de adeptos associadas a práticas de violência. Pretendemos assim demonstrar, em que medida a interacção produzida entre as várias dimensões presentes na construção social de um grande evento desportivo, como foi o caso do Euro 2004, o transformam num espaço-tempo global de redefinição dos sentidos, valores e símbolos de afiliação nacional, contribuindo deste modo para a revalidação e enaltecimento do simbólico na promoção do sentido da existência humana constitutiva das sociedades culturalmente diferenciadas.
(...)
Como hipóteses teóricas de investigação, considerámos que as dimensões político-ideológica e ética que rodeiam o envolvimento das instâncias públicas, bem como a comercial e mediática produzidas na promoção do torneio, exercem fortes determinações nas manifestações de cidadania identitária que têm lugar nos grandes eventos de futebol, entendidos enquanto espaços-tempo globais. Considerámos ainda, que a natureza da violência associada aos comportamentos de adeptos se apresenta como uma manifestação do fenómeno de radicalização das potencialidades dos grandes eventos desportivos na expressão de identidades diferenciais no quadro global.
Em Towards a global programme of research into fighting and disorder at football, Dunning, Murphy and Waddington (2002), reunindo as várias contribuições à edição de Fighting Fans, concluíram como princípios explicativos do fenómeno, o enorme significado do futebol para vida dos adeptos (raisons d’être), a perda de auto controlo advindo do forte envolvimento emocional e do elevado grau de excitação vivenciado, aliado às rivalidades e identidades veiculadas e sentidas por espaços masculinos com forte incorporação do “comportamento de luta patriarcal”, onde se encontram as formas culturais diferenciadas (como os “ ‘core football hooligans’ ou ‘ultra’ style ”). Também, as formas de violência manifestadas adquirem especificidades, sendo estas influenciadas pelas diferentes intervenções policiais. Referem ainda, que a enorme publicidade dos incidentes em torno do futebol tem vindo a atrair em maior ou menor proporção organizações extremistas (segundo a predominância destas ideologias nas diferentes sociedades), que aí encontram possibilidades de recrutamento e de expressão de comportamentos racistas, xenófobos e de nacionalismo exacerbado com forte pendor para o uso da violência.
As grandes ‘causas’ em torno das quais são construídas as rivalidades hostis que impelem os adeptos de futebol a confrontar-se, emergem dos contextos históricos das diferentes sociedades, podendo ser construídas em torno da afirmação de identidades nacionais ou da resistência a estas, nomeadamente desigualdades sociais, políticas, económicas, regionais, locais, e entre clubes, ou outras que possam assumir formas de exclusão, ou transportam oposições entre o tradicional e o moderno, segundo concluíram Armstrong e Giulianotti (2001), das várias contribuições à colectânea Constructing Social Identies: Exploring the Stuctured Relations of Football Rivalries.
Apesar das inúmeras contribuições à compreensão dos comportamentos associados à violência por parte dos adeptos de futebol pertencentes ou não às subculturas de adeptos associadas a comportamentos de violência, o fenómeno continua a suscitar forte polémica nos meios académicos e institucionais. A descontextualização da violência do fenómeno mais abrangente em que emerge, constitui em nosso entender um dos maiores obstáculos à sua compreensão. Também as abordagens produzidas pelos media, que tendem a associar os comportamentos dos adeptos protagonistas da violência a estados de insanidade mental causados ou não pelo excesso de álcool, rotulando-os de ‘energúmenos’, ‘escumalha’ ou ‘lunáticos’, ainda que captem o interesse de um largo público e assim criem senso comum, não deixam de encerrar fortes juízos de valor que nada contribuem para a explicação da realidade.
Mais elaboradas parecem ser as interpretações de alguns autores na explicação do fenómeno, que recorrem a abrangentes concepções teóricas, algumas delas de forte pendor teleológico, que apesar de fornecerem uma explicação do fenómeno acabam por assentar em frágeis pressupostos teóricos. Como defende Anthony Giddens (1985) em The Nation-State and Violence, a crença de que as ciências sociais poderiam controlar o destino das sociedades levou à construção de modelos utópicos de sociedade (“‘good society’ ”), que carecem de ser contextualizados (ou desconstruídos) através da análise crítica das realidades no contexto das mudanças em curso. De facto, se por um lado algumas destas interpretações têm feito ‘escola’, por outro têm acendido as mais vivas polémicas nos meios académicos.
Parece-nos no entanto, que alguns dos mais críticos não apresentam propostas alternativas, como por exemplo o antropólogo Gary Armstrong em Football Hooligans. Knowing the Score, ao defender que o “hooliganismo do futebol não pode ser realmente ‘explicado’, pois apenas pode ser descrito e avaliado” (1998: 21). Contudo, o autor sugere que a descrição do fenómeno necessita de ter em conta as dinâmicas ‘em jogo’, ou o drama presente na complexa contestação, e a sua construção nos específicos meios masculinos. As possibilidades de criação de risco e excitação em quotidianos que apresentam um elevado grau de rotina, onde se joga o desafio à ordem estabelecida, se sente orgulho por algo e ao mesmo tempo se provoca admiração, inveja e raiva, levam o autor a considerar que os “eventos à volta do hooliganismo” são “essencialmente narcísicos” (1998: 309).
Independentemente dos comportamentos mais ou mesmos esperados por parte dos adeptos das subculturas onde o uso da violência é frequente, e tendo em conta os históricos das rivalidades hostis, os contextos e formas de violência decorrem em grande medida do factor dinâmico colocado em marcha, nomeadamente a acção das forças policiais. Como tem vindo a ser concluído em estudos anteriores, como por exemplo de Clifford Stott et al. (2001) ‘Hooligans’ abroad? Inter-group dynamics, social identity and participation in collective ‘disorder’ at the 1998 World Cup Finals, e de Otto Adang e Christine Cuvelier (2001) Policing Euro 2000. International police co-operation, information management and police deployment, é da interacção das ‘forças presentes no terreno’, entendidas enquanto características dos adeptos, rivalidades e estratégias de intervenção das forças policiais, que em boa medida os conflitos sérios como a escalada de violência em multidão se operam.
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Em síntese, através da análise da construção social que rodeia um grande evento desportivo, quisemos compreender o seu impacto ao nível dos envolvimentos produzidos em torno da afirmação de identidades nacionais e culturalmente diferenciais como se torna visível nas subculturas de adeptos associadas a práticas de violência. Pretendemos assim demonstrar, em que medida a interacção produzida entre as várias dimensões presentes na construção social de um grande evento desportivo, como foi o caso do Euro 2004, o transformam num espaço-tempo global de redefinição dos sentidos, valores e símbolos de afiliação nacional, contribuindo deste modo para a revalidação e enaltecimento do simbólico na promoção do sentido da existência humana constitutiva das sociedades culturalmente diferenciadas.
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Como hipóteses teóricas de investigação, considerámos que as dimensões político-ideológica e ética que rodeiam o envolvimento das instâncias públicas, bem como a comercial e mediática produzidas na promoção do torneio, exercem fortes determinações nas manifestações de cidadania identitária que têm lugar nos grandes eventos de futebol, entendidos enquanto espaços-tempo globais. Considerámos ainda, que a natureza da violência associada aos comportamentos de adeptos se apresenta como uma manifestação do fenómeno de radicalização das potencialidades dos grandes eventos desportivos na expressão de identidades diferenciais no quadro global.
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