05 junho 2007

Euro 2004: um evento global em Portugal - excerto 2

Marivoet, Salomé (2006) Euro 2004TM um evento global em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. pp. 15-29 (excertos)

Os hooligans na sua versão casuals agem em gangs, por conseguinte sem uma organização explícita, embora a liderança seja exercida sobretudo na premeditação de actos de violência dirigidos à confrontação com grupos rivais (Armstrong 1998; Dunning 1999; Dunning e tal. 2002; Williams 2002; Bairner 2002; Dwertmann & Rigauer 2002). Contrariamente aos hooligans/casuals, os ultras encontram-se associados em organizações que são dirigidas por uma direcção representada por um líder máximo ou presidente. A confrontação entre ultras rivais é também usual sempre que não se encontram policiados, pois a cultura do desafio e do constrangimento moral para vingar a honra, encontra-se fortemente presente (Podaliri & Balestri 1998; Roumestan 1998; Hourcade 2002; Marivoet 1992abc, 1998a, 2002b).
No entanto, os ultras têm vindo a apresentar uma fraca envolvência nos campeonatos entre selecções nacionais, enquanto os hooligans/casuals apresentam uma maior tendência para transportarem o seu sentido de afiliação com os clubes para as suas selecções nacionais, e por isso a mobilizarem-se fortemente para o espaço das competições internacionais como os europeus e mundiais onde ganham maior visibilidade. A predisposição para a confrontação associada à procura do prestígio pessoal (adquirido nas façanhas da luta), mas também o desafio às forças de segurança regra geral percepcionadas como provocatórias, constituem feitos que seguramente sabem que terão expressão mundial dada a mediatização do espectáculo (Williams 1997; Bromberger 1997; Armstrong 1998).
É no entanto entre os ingleses, escoceses, holandeses e alemães pertencentes à subcultura hooligan/casual que as maiores rivalidades se estabelecem e também as semelhanças, como por exemplo a generalização do estilo ‘casual’ (Finn & Giulianotti 2000). Conotado com as roupas e acessórios de marca com que gostam de se ver associados (Armani, Stone Island, Burberrys, Ralph Loren, Lacoste entre outras), exibem-nas como símbolo de distinção. Segundo Dougie Brimson (2003) em Eurotrashed. The Rise and Rise of Europe’s Football Hooligans, o movimento casual terá sido criado pelo adeptos de Liverpool nos finais dos anos setenta, tendo-se generalizado na Grã-Bretanha o estilo de fashionable hooligan no início da década seguinte.
Apesar das diferenças entre as várias subculturas de adeptos no quadro europeu, a maioria dos autores que se têm vindo a debruçar sobre o fenómeno da violência no futebol, têm vindo a concordar que se encontra nos comportamentos mais ou menos tipificados e esperados, o estereótipo tradicional de masculinidade, que radica em última instância na associação da força física à virilidade e à honra na defesa das identidades pessoais e dos ‘territórios’ de pertença (físicos e simbólicos na acepção de Maffesoli). A transversalidade social na incorporação da cultura tradicional masculina ocidental, ainda que mais enraizada na cultura popular, poderá apresentar-se assim como um princípio explicativo da atracção que as subculturas do futebol exercem em indivíduos com alguma heterogeneidade sociocultural.

Sem comentários: