
Marivoet, Salomé (2006) Euro 2004TM um evento global em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. pp. 15-29 (excertos)
Apesar das recentes tentativas encetadas pelas organizações desportivas em captarem públicos femininos ou mesmo jogadoras para os entretanto quadros competitivos criados, o futebol continua a constituir um espaço marcadamente masculino, bem visível nas subculturas de adeptos cujos membros são na sua grande maioria homens ou rapazes (Elias e Dunning 1986; Dunning 1999; Marivoet 2001ab, 2002c). O código de honra que os impele a lutar (e também a provocar com cânticos, gestos ou palavras de ordem que pretendem feminizar e assim desvalorizar os adversários tidos como inimigos), denotam bem estarmos perante um espaço de afirmação de um determinado tipo de masculinidade. Como referiu Pierre Bourdieu (1999b) no seu interessante livro intitulado A Dominação Masculina:
A virilidade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão para o combate e para o exercício da violência (nomeadamente na vingança), é antes do mais um en(cargo). Por oposição à mulher, cuja honra, essencialmente negativa, só pode ser defendida ou perdida (…) o homem ‘verdadeiramente homem’ é aquele que se sente vinculado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de aumentar a sua honra procurando a glória e a distinção na esfera pública. A exaltação dos valores masculinos tem a sua contrapartida tenebrosa nos medos e nas angústias suscitadas pela feminilidade: fracas e princípios de fraqueza enquanto incarnações da vulnerabilidade da honra (…) Tudo concorre assim para fazer do ideal impossível de virilidade o princípio de uma imensa vulnerabilidade. É ela que conduz, paradoxalmente, ao investimento, por vezes exacerbado, de todos os jogos de violência masculinos, tais como nas nossas sociedades os desportos, e muito especialmente os mais de molde a produzirem os sinais visíveis da masculinidade, e a manifestarem e também a porem à prova as qualidades chamadas viris, como os desportos de combate. (…) Certas formas de ‘coragem’, as exigidas ou reconhecidas pelas forças armadas ou as polícias (e muito especialmente os ‘corpos de elite’) e pelos bandos delinquentes (…) encontram, paradoxalmente, o seu princípio no medo de perder a estima ou a admiração do grupo, de ‘baixar a cabeça’ diante dos ‘colegas’ e de cair na categoria tipicamente dos ‘fracos’, dos ‘medricas’, dos ‘maricas, dos ‘paneleiros’, etc. (…) A virilidade como vemos, é uma noção eminentemente relacional, construída diante dos e para os homens e contra a feminilidade, numa espécie de medo do feminino, e antes de mais de si próprio.
A predominância nas subculturas de adeptos de futebol do tradicional estereótipo masculino vulgarmente associado à cultura popular, e com este uma das explicações para as usuais práticas de violência que lhe estão associadas, veio no entanto a suscitar interrogações quando à capacidade de atracção de membros de outras franjas sociais sobretudo nos meios académicos ingleses (Dunning, Murphy, Williams 1988; Williams 1997; Armstrong 1998, Dunning et. al 2002). Contudo, parece ser do consenso geral que a subcultura hooligan/casual tem atraído jovens de várias franjas sociais, ainda que como refere Eric Dunning et al. (2002: 18) em Towards a sociological understanding of football hooliganism as a world phenomenon, as estatísticas das forças policiais relativas à ocupação dos adeptos detidos durante as décadas de oitenta e noventa “sugerem que a maioria dos hooligans do futebol inglês vêm do estrato mais baixo da escala social. Uma pequena proporção, no entanto, é recrutado à volta do meio (‘middle’) e mesmo uma pequena parte do, ou perto de cima (‘top’)”. Se as identidades de classe levaram a algumas ilações na explicação do fenómeno nos meios académicos dos países onde predomina a subcultura hooligan/casual, nomeadamente ser entendido como forma de resistência à cultura dominante, no caso dos países do Sul onde predomina a ultra, os estudos têm sido consensuais quanto à heterogeneidade social entre os seus aderentes (Mignon 2002; Roversi & Balestri 2002; Astrinakis 2002; Marivoet 1992ab, 1998a, 2002b).
Apesar das recentes tentativas encetadas pelas organizações desportivas em captarem públicos femininos ou mesmo jogadoras para os entretanto quadros competitivos criados, o futebol continua a constituir um espaço marcadamente masculino, bem visível nas subculturas de adeptos cujos membros são na sua grande maioria homens ou rapazes (Elias e Dunning 1986; Dunning 1999; Marivoet 2001ab, 2002c). O código de honra que os impele a lutar (e também a provocar com cânticos, gestos ou palavras de ordem que pretendem feminizar e assim desvalorizar os adversários tidos como inimigos), denotam bem estarmos perante um espaço de afirmação de um determinado tipo de masculinidade. Como referiu Pierre Bourdieu (1999b) no seu interessante livro intitulado A Dominação Masculina:
A virilidade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão para o combate e para o exercício da violência (nomeadamente na vingança), é antes do mais um en(cargo). Por oposição à mulher, cuja honra, essencialmente negativa, só pode ser defendida ou perdida (…) o homem ‘verdadeiramente homem’ é aquele que se sente vinculado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de aumentar a sua honra procurando a glória e a distinção na esfera pública. A exaltação dos valores masculinos tem a sua contrapartida tenebrosa nos medos e nas angústias suscitadas pela feminilidade: fracas e princípios de fraqueza enquanto incarnações da vulnerabilidade da honra (…) Tudo concorre assim para fazer do ideal impossível de virilidade o princípio de uma imensa vulnerabilidade. É ela que conduz, paradoxalmente, ao investimento, por vezes exacerbado, de todos os jogos de violência masculinos, tais como nas nossas sociedades os desportos, e muito especialmente os mais de molde a produzirem os sinais visíveis da masculinidade, e a manifestarem e também a porem à prova as qualidades chamadas viris, como os desportos de combate. (…) Certas formas de ‘coragem’, as exigidas ou reconhecidas pelas forças armadas ou as polícias (e muito especialmente os ‘corpos de elite’) e pelos bandos delinquentes (…) encontram, paradoxalmente, o seu princípio no medo de perder a estima ou a admiração do grupo, de ‘baixar a cabeça’ diante dos ‘colegas’ e de cair na categoria tipicamente dos ‘fracos’, dos ‘medricas’, dos ‘maricas, dos ‘paneleiros’, etc. (…) A virilidade como vemos, é uma noção eminentemente relacional, construída diante dos e para os homens e contra a feminilidade, numa espécie de medo do feminino, e antes de mais de si próprio.
A predominância nas subculturas de adeptos de futebol do tradicional estereótipo masculino vulgarmente associado à cultura popular, e com este uma das explicações para as usuais práticas de violência que lhe estão associadas, veio no entanto a suscitar interrogações quando à capacidade de atracção de membros de outras franjas sociais sobretudo nos meios académicos ingleses (Dunning, Murphy, Williams 1988; Williams 1997; Armstrong 1998, Dunning et. al 2002). Contudo, parece ser do consenso geral que a subcultura hooligan/casual tem atraído jovens de várias franjas sociais, ainda que como refere Eric Dunning et al. (2002: 18) em Towards a sociological understanding of football hooliganism as a world phenomenon, as estatísticas das forças policiais relativas à ocupação dos adeptos detidos durante as décadas de oitenta e noventa “sugerem que a maioria dos hooligans do futebol inglês vêm do estrato mais baixo da escala social. Uma pequena proporção, no entanto, é recrutado à volta do meio (‘middle’) e mesmo uma pequena parte do, ou perto de cima (‘top’)”. Se as identidades de classe levaram a algumas ilações na explicação do fenómeno nos meios académicos dos países onde predomina a subcultura hooligan/casual, nomeadamente ser entendido como forma de resistência à cultura dominante, no caso dos países do Sul onde predomina a ultra, os estudos têm sido consensuais quanto à heterogeneidade social entre os seus aderentes (Mignon 2002; Roversi & Balestri 2002; Astrinakis 2002; Marivoet 1992ab, 1998a, 2002b).
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